Abdias Nascimento

Para celebrar o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, o espaço que destaca obras do Acervo da CAL homenageia Abdias Nascimento.

Poeta, ator, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras, Abdias Nascimento usou  seus múltiplos talentos e formas de expressão para lutar pela  defesa e promoção  das populações afro-brasileiras e latino-americanas.

Nascido em Franca, no interior paulista, em 1914, segundo filho de dona Josina, a doceira da cidade, e seu José, conhecido como Bem-Bem, músico e sapateiro, o menino Abdias tinha seis irmãos e cresceu numa família coesa, carinhosa e organizada, porém pobre. Dona Ismênia, sua avó materna, havia sido escrava, e, apesar do neto ter nascido no contexto pós-abolição, o racismo e as relações sociais que marcaram o Brasil na época dela ainda vigoravam com bastante força.

Aos nove anos, já trabalhava entregando leite e carne nas casas dos moradores mais ricos da cidade e assim ajudava a família financeiramente. Aos 15 anos, Abdias formou-se em contabilidade. Foi morar em São Paulo, depois de se alistar no Exército. Na década de 1930, lutou contra a segregação racial em estabelecimentos comerciais da cidade, após aderir à Frente Negra Brasileira, que realizava protestos em locais públicos e trabalhava na perspectiva de integrar o negro brasileiro à sociedade de classes. Inclusive, ele fez  parte da comitiva que foi ao Rio de Janeiro protestar junto ao presidente Getúlio Vargas.

Ao sair do Exército, passou a ser ferozmente perseguido pela polícia de São Paulo, em razão de sua atuação na FNB. Então, em 1936, foi para o Rio de Janeiro. Em 1938,  terminou o curso de Economia, na Universidade do Rio de Janeiro.  Prossegue na luta contra o racismo organizando o Congresso Afro-Campineiro, em 1938 e, em 1944, funda  o Teatro Experimental do Negro (TEM).

A primeira peça encenada pelo TEN, formado exclusivamente por atores negros, foi O Imperador Jones,  que Abdias havia assistido em Lima (Peru) e era interpretada por atores brancos pintados de negros. A peça, escrita  por  Eugene O´Neill, teve uma única apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1945. Foi um enorme sucesso, apesar de parte da imprensa da época ter feito duras críticas à iniciativa de um teatro de atores negros, afirmando ser desnecessária, pois não havia racismo no Brasil.

Ao longo das décadas de 1950/1960, Abdias militou pelo movimento negro em congressos, encontros e protestos que essa parcela da população promovia, muitas vezes sob a liderança  dele. Com o golpe militar de 1964, no entanto, a militância negra enfrentou forte repressão por parte dos governos. A posterior promulgação do AI-5, em 1968, proibiu oficialmente a militância negra antirracista, o que levou Abdias a buscar exílio nos Estados Unidos, onde viveria por quase treze anos, militando pelo movimento pan-africanista.

Teve uma intensa vida acadêmica. Militante do antigo PTB, após o golpe de 1964,  participou desde o exílio na formação do PDT. Já no Brasil, lidera, em 1981, a criação da Secretaria do Movimento Negro do PDT. Deputado federal (1983/1986). Foi secretário  da Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras (SEAFRO), do Rio, entre 1991/1994. Suplente do senador Darcy Ribeiro, assumiu a cadeira no Senado, representando o Rio de Janeiro pelo PDT em dois períodos: 1991/1992 e 1997/99 e  foi secretário de Direitos Humanos e da Cidadania, no governo do Rio de Janeiro, em 1999.

A partir dos anos  2000, Abdias recebeu uma porção de homenagens e premiações em reverência à sua trajetória de vida, a começar pelas comemorações pelos seus noventa anos em 2003. Faleceu em 24 de maio de 2011, aos 97 anos, vítima de uma pneumonia que se complicou e agravou problemas cardíacos. A herança de sua trajetória e ensinamentos se encontra presente na luta de cada um dos afrodescendentes, contra o racismo e a discriminação.

Única obra de Abdias Nascimento pertencente ao Acervo da CAL, a pintura "Tributo a Agnaldo Camargo" é uma homenagem do artista ao grande amigo,  um dos fundadores  do  Teatro Experimental do Negro, que morreu precocemente, em  1952, vítima de um atropelamento.


Título: "Tributo a Agnaldo Camargo"
Ano: 1987
Técnica: Acrílica sobre tela

Fonte: sites abdias.com.br/ Wikipédia/Museu Afro Brasil/Teatropedia

Brasília, 18 de novembro de 2016
Núcleo de Comunicação Social da CAL