Bonecas Karajá

Bonecas Karajá: expressão de uma identidade

Tombadas como patrimônio imaterial brasileiro, as bonecas Karajá são mais do que brinquedos infantis, são representações culturais que comportam significados sociais profundos, reproduzindo o ordenamento sociocultural e familiar dos Karajá, além de ser a única ou a mais importante fonte de renda das famílias.

Os Karajás são os habitantes seculares das regiões que margeiam o rio Araguaia, supostamente antes da chegada dos colonizadores, em área que abrange os estados de Goiás, Mato Grosso, Pará e Tocantins. Estima-se que a população total seja de 3.198 indivíduos (FUNASA, 2010). O mais importante aldeamento é Santa Isabel do Morro (Hawaló), localizado na ilha do Bananal, Tocantins.  Apesar da longa convivência com a Sociedade Nacional, o grupo conseguiu manter costumes tradicionais como: língua nativa, as bonecas de cerâmica, as pescarias familiares, os rituais como a Festa de Aruanã e da Casa Grande (Hetohoky), os enfeites plumários, a cestaria, artesanato em madeira e as pinturas corporais, como os característicos dois círculos na face.

 A técnica de confecção das bonecas Karajá é determinada pelas etapas de escolha e coleta da argila, preparo da massa, modelagem, secagem, alisamento, queima, coleta e preparo dos corantes e pintura dos objetos. Esse processo de produção dura cerca de 7 dias e a etapa de modelagem pode ser acompanhada pelas filhas que já dominam a técnica ou por meninas pequenas que estão em processo de aprendizado.

A atividade de ceramista é de controle e domínio das mulheres, eventualmente os homens participam da etapa de coleta e transporte da matéria prima. Todas as mulheres aprendem a modelar desde a infância, mas nem todas são consideradas ceramistas. O título de ceramista refere-se apenas às mulheres que conhecem e dominam todos os processos, pois muitas desistem da atividade em função da etapa da queima que requer um alto domínio técnico, muito trabalho e disponibilidade de tempo.

Quando as crianças completam cinco ou seis anos de idade recebem de presente da avó materna sua “família” de bonecas em cesta própria para guardá-las. Dependendo da ceramista, pode representar o modelo da família nuclear, com cinco a seis peças, ou ser mais completa, com um elenco maior de onze ou mais figuras, representando a tipologia da família extensa, composta pelos avós maternos, pais, irmãos. Algumas cestas podem vir acompanhadas de bonecas industrializadas de plástico que representam os não indígenas (Tori). Os brinquedos acompanham as meninas até a fase de transição para idade adulta, caracterizada pela menarca.

Os graus de idade e os ciclos sociais dos Karajá são representados por uma multiplicidade de códigos estéticos, como: a pintura corporal, os adornos e o corte de cabelo, entre outros. Esses códigos também são refletidos na figura das bonecas, na qual existe um padrão estilístico para cada categoria de idade e sexo. Além disso, também há  bonecas onde figuram a fauna (Iródusõmo) e a mitologia através de figuras sobrenaturais (Aõni).

  A arte Karajá é transmitida de geração em geração e constantemente ressignificada pela comunidade em função do ambiente e das interações sociais. Sobre esses processos culturais é possível distinguir as bonecas antropomórficas em Hўkўnaritxoko (boneca antiga) e Ritxoko (boneca moderna). As diferenciações dos padrões estilísticos das bonecas ocorreram principalmente com o advento da produção em grande escala – mais de quinhentas por mês, as Ritxoko, voltadas para a comercialização, foram moldadas a partir da percepção da preferência do mercado consumidor, por exemplo, passou-se a utilizar mais a argila acinzentada por destacar melhor as cores preta e vermelha e inseriram como temáticas cenas do cotidiano, como atividades domésticas, parto e funeral, e ainda, a etapa da queima foi incluída por dar mais resistência facilitando o transporte e até a exportação.

 O acervo da Casa da Cultura da América Latina conta com 9 bonecas Karajás doadas pela FUNAI. Atualmente, as bonecas integram o acervo de vários museus no país e no mundo. São procuradas como objetos de decoração e comercializadas junto a turistas e lojas de artesanato. No entanto, devem ser compreendidas além da sua expressão material, pois condensam e expressam importantes aspectos da identidade do grupo, além de simbolizar diversos planos de sua sociocosmologia.

Texto de Michelle Lourenço, antropóloga, que escreveu o artigo quando  realizava estágio técnico junto ao Acervo da Casa da Cultura da América Latina.

Referências bibliográficas

CAMPOS, Sandra M.C.T.L. Bonecas Karajás: Modelando inovações, transmitindo tradições. Tese de doutorado. PUC/SP, 2007.

CHANG, Whan. Tradição e Inovação na Cerâmica Figurativa Karajá. In: Tradição e Inovação – Anais do 5º Encontro do Mestrado em História da Arte. Rio de Janeiro, UFRJ, EBA, 1998.

CHANG, Whan. Ritxoko: A voz visual das ceramistas Karajá. Tese de doutorado. Rio de Janeiro, UFRJ, 2010.

Lima Filho, Manuel Ferreira. Considerações sobre o grafismo Karajá na perspectiva dos Karajá de Aruanã (GO). Relatório técnico. Goiânia, UFG, 2010.

SILVA, Telma Camargo da. Primeiras aproximações ao grafismo aplicado às Ritxòkò. Relatório técnico. Goiânia, UFG, 2010.

Brasília, 04 de maio de 2017